terça-feira, 23 de setembro de 2008

A ponta da linha. Carretel que se perdeu debaixo do móvel. Estava solta no braço do sofá, e se escondia pelas frestas na divisa entre o braço e o assento. Ali dentro havia muitas coisas, e num pequeno espaço as migalhas, sujeiras e dejetos perdidos nunca mais encontrados disputavam a pequena vaga entre o couro da mobília.
Desaparecem nesse local constantemente moeda, palitos de fósforos, bitucas de cigarros, comida (arroz, milho-verde, feijão, macarrão, todos secos), era uma bagunça de coisinhas pequeninas nesse apertume escondido. O que não se achava podia ter certeza, era ali encontrado após meses de procura, isso acontecia geralmente nas limpezas detalhadas que se sucediam em datas pontuais, e não com tanta freqüência dentro da casa.
Uma pontinha de linha de repente apareceu, e se fez presente entre as rachaduras do couro do sofá. Senti vontade de puxar e ela veio generosa em minha mão, puxei mais uma vez e ela correu deliciosamente pelo meio do pequeno espaço apertado. Puxei mais vezes e ela se fez dançar, percebi que há uma distancia próxima se fazia um barulho de um objeto familiar. Fui procurar, e encontrei debaixo do sofá, um carretel de linha, que se estendia, passando por entre á fresta indo parar no chão.
Fiz o movimento contrário, puxei agora pelo carretel todo o restante de linha que eu tinha puxado lá em cima, eu estava deitado no chão, e me senti dono daquele carretel, mas ele veio pouco até eu sentir um puxão, algo impedindo o seu deslize. Movimentação, sensação e ação bem diferente, puxar a linha para sentir o carretel e agora o carretel para sentir a linha.
Tentei mais uma vez, mas algo prendia e impedia seu deslize. As tentativas foram várias e senti algo que não deixava ela se soltar e estar livre, ou, enrolada mais uma vez ao entorno do carretel. A investigação durou alguns minutos até eu perceber que entre as linhas da costura da fresta do sofá, estava um nó da própria linha que se embolou, não sei como, mas que não possibilitava a sua passagem.
Arrebentar foi o pensamento, mas como eu queria que toda ela estivesse junta mais uma vez? Eu me senti semelhante, pedaço de mim não pode estar distante de mim, mesmo estando tão perto. Arrebentar não seria assim a melhor idéia, e depois tentar unir novamente não seria também o mais correto. Não queria separar aquilo que não fui eu que uni.
Investi mais uma vez e ai pensei, naquele nó, como ele pode ter formado ali?
Será que alguém o colocou naquele lugar?
Como isso poderia ter acontecido?
Não tem e não precisa ter explicação, os nós se formam e para desatarmos precisamos da paciência e do tempo. Ele era presente e eu estava impaciente.
Levantei-me e agora por cima, afastei as duas partes do couro, e com ajuda das mãos, pude afastar as linhas da costura, empurrando para baixo o pequeno nó, até vê-lo livre impedindo o movimento do resto. Ela voltou para todo o entorno do carretel, e fez parte durante algum tempo da ornamentação da prateleira do meu quarto.
Hoje toda essa linha com nó e tudo está na roupa de um boneco que costurei, dei uma funcionalidade para aquele enrrosquinho, da linha da costura que contribuiu na formação dessa pequenina roupa.
Hoje esse carretel está na caixinha de costura fazendo companhia com agulhas, dedal tesouras e coisinhas de coser, sobre á maquina de costura e pedaços de retalhos dos tecidos no cômodo da casa que fora destinado á isso.

domingo, 7 de setembro de 2008

Canto para Janaína

O sobrado de mamãe é debaixo d’água
O sobrado de mamãe é debaixo d’água
Debaixo d’água por cima da areia
Tem ouro, tem prata
Tem diamante que nos alumeia

Dona do raio e do vento




O raio de Iansã sou eu,

Cegando o aço das armas de quem guerreia,

E o vento de Iansã também sou eu ,

E Santa Bárbara é santa que me clareia.

A minha voz é vento de maio,

Cruzando os mares dos ares do chão

Meu olhar tem a força do raio, que vem de dentro do meu coração

O raio de Iansã sou eu

Cegando o aço das armas de quem guerreia.

E o vento de Iansã também sou eu,

E Santa Bárbara é santa que me clareia,

Eu não conheço rajada de vento mais poderosa que a minha paixão,

Quando o amor relampeia aqui dentro,

vira um corisco esse meu coração

Eu sou a casa do raio e do vento

Por onde eu passo é zunido, é clarão

Porque Iansã desde o meu nascimento, tornou-se a dona do meu coração

O raio de Iansã sou eu...

Sem ela não se anda

Ela é a menina dos olhos de Oxum

Flecha que mira o Sol

Olhar de mim.
Paulo César Pinheiro