O PRIMEIRO PASSO:
Entrou pela porta e falou logo que queria me namorar, assim, sem pedir licença, de forma sistemática, propagandista e polemista. O cuidado veio depois, quando perguntou a essência do incenso e pediu cores, todas elas.A combinação era Amélie Poulain, verde e vermelho, dei o que pude.Por ter convívio livre com os fenómenos ópticos provocados pela ação dos feixes de luz (as Artes Visuais), começou lentamente a pintar-me. Escolhi branco. Branco de fita de amarrar em pulsos.
Reformista, queria mudar-me mas não queria mudar-se e eu pedia consolo e dizia não suportar por muito tempo números, ou bites. Do outro segmento poligonal, imensos significados comuns surgiam e já era sentido ciúmes de vento, de passeios, de farmácias e do cotidiano assíduo que eu não tinha.
Comecei a ser fixo no século em que a liberdade foi proclamada e a ilustrar com profundidade espacial os primeiros planos que tinha visto na vida, fiz gotas de uma cor que ainda não tinha existência, uma pérola imperfeita. Estava nas paletas de aquarelas barrocas e nas casas de tinta, mas ali, ainda mal se sabia que amarelo eram os submarinos.Quando teve mesmo de conjugar o tempo do verbo de permanência… eu fiquei, e fico, e volto de novo, e viro o avesso, e tiro o pó, e pulo de ponta, e sacudo o farelo, e acumulo mais poeira.
A alegria que vira abóbora à meia-noite – quando o monitor da sala onde o mundo e a mãe brotam em estruturas de vidro e caixas pretas com ratos – se disfarça de pessimismo otimista por falta de razões e crenças, e antes de dormir até pensa em se chamar Voltaire, tocar violino em sacadas e colocar a cabeça entre ombro e o pescoço querendo achar um lugar confortável.
( ARTUR CAMPOS JR.)