Era alta, majestosa, bela e generosa, lembrava-me muito um castelo como aqueles dos contos de fadas. Não tinha nada a se comparar aos padrões estéticos definidos pela arquitetura da época, nem ao menos grandeza física, mas a mim era a mais bela das casas... A organização era perfeita, havia cheiros e sonhos, calorosa como um abraço, uma verdadeira exaltação arquitetônica; a mais poderosa de todas: era a minha casa!
Minha vida fora sempre muito simples e humilde regada de muitas alegrias e riquezas imateriais. Ainda sinto o cheiro de pão fresquinho saindo do fogão a lenha, feito pela minha mãe. Adorava me deitar no chão da casa e passar horas olhando para o teto sem forro, onde os fios se entrelaçavam fazendo um “carnaval.” Era simplesmente lindo! Os fios formavam desenhos e coreografias no espaço e ao fundo minha mãe sempre indagando:
- Esses fios são perigosos! Um dia ainda vai dar um curto circuito!
Eu não via perigo algum, ora madeira, ora fios de luz, e a brincadeira se completava quando surgiam as teias de aranha dando um toque de magia e perfeição ao que o homem criou tão mecanicamente. Como eu lamentava quando minha mãe as tirava com a vassoura! Era preciso vivenciar para entender o quanto elas eram importantes naquela obra.
As paredes da casa eram de madeira. Eram apenas pintadas por fora, nós e veios sempre estavam em evidência e as vigas atravessavam toda a casa em busca da sustentação.
Os quartos eram os maiores que eu já havia visto, os que eram ocupados por mim e pelos meus irmãos não tinham portas e o que limitava os espaços, eram as cortinas coloridas que se transformavam em poesia quando minha mãe comentava sobre a dificuldade que as portas de madeira davam a quem sem barulho algum deveria zelar pelas crianças que dormiam na calada da noite.
Ao redor da casa havia o gramado mais verdejante de todos. As árvores compunham uma relação harmoniosa com as flores. As que mais lembranças me deixaram foram as frondosas azaléias que floresciam uma vez ao ano e davam o toque exato à composição do quintal: verde e rosa. Algumas vezes elas adentravam a casa para enfeitar e decorar os vasos que geralmente eram colocados sobre a mesa.
Essa casa, até hoje me traz as mais lindas recordações e me remete aquela infância de brincadeiras, de histórias e de tantos outros contos que as visitas traziam para a diária roda de chimarrão, as famosas prosas polêmicas desenvolvidas pelas vizinhas alcoviteiras e a vida pura que se tinha.
Ela durou o tempo da minha infância e adolescência e foi insubtituívelmente importante para a nossa família. Na sua construção, as madeiras foram colocadas muito próximas ao chão e em seguida construiu-se as calçadas ao seu redor o que prejudicou muito a passagem de ar, ocasionando umidade e os fungos que com o tempo fez adoecer toda a estrutura comprometendo assim a nossa segurança.
Aos poucos nos vimos pensando em outra casa, que tivesse mais resistência que não tivesse os mesmos erros de estrutura e que garantisse o nosso conforto. Os planos nos consumiam, era a diversão do momento, elaborar um novo recanto sem entender que para tanto haveria a demolição e assim partiriam as historias e os acontecimentos restando somente as lembranças e que hoje chamamos de passado.
Atualmente, no mesmo lugarzinho, encontra-se uma casa bem maior, bem mais pesada e frondosa e com bem menos vida para a eternidade inteira que ela vai durar.
A minha casa hoje é um lugar de relações e é de extrema importância que elas aconteçam que elas tragam proximidade e intimidade e que comigo troque energias como nos velhos tempos.
Sinto que pra mim a casa é bem menos que matéria e bem mais que sentimento. É ela que me conforta na ausência de todos; que tem me aquecido nos dias mais frios, e é ela quem recebe como ninguém as pessoas que mais amo. A casa é nossa real identidade, o que somos e como somos. Suas cores e objetos completam as nossas ações fora dela, consegue nos evidenciar como seres humanos que somos dignos de enfrentar o mundo e jamais de se esconder atrás de suas paredes.
autor: Edson Macalini
Colaboração: Gracielle Weiller