sexta-feira, 23 de maio de 2008

Minga- zóio de prata



Eram elas as senhoras-donas, ali no beco do Calabrote.Quem transitasse pelo beco, tivesse cuidado... Passasse quieto e bonzinho. Não se engraçasse nem fizesse cara de pouco. E quem fosse de entrar, empurrasse a porta de dentro, com fala curta e dinheiro pronto. Escândalo de mulher-dama não dava; nunca deu; também, nunca foram levadas, como tantas, para capinar na frente da cadeia. Família de respeito podia passar toda hora, não via nada. Macho, porém, que não se fizesse de besta... Eram donas e autoridade no beco. O beco era delas. E tinham prestígio.Duas irmãs, morando juntas na mesma casa, de porta e janela aberta aos homens que quisessem entrar; isso a Zóio de Prata. Já a Dondoca, tinha seu homem e era pontual a ele só.Também eram conhecidas por As Cômodas, na roda da macheza. Minga era durona. Não tretasse com ela, saindo sem deixar a taxa... Um que tentou a rasteira, ela alcançou já fora do beco e deixou sem as calças no meio da rua.Tinha mesmo um bugalho branco, saltado, e era vesga do outro. Espinhenta, de cabelo sarará, mulatona encorpada, de bacia estreita, peito masculino, de mamilos duros, musculosa; servindo bem no ofício, de fala curta, braço forte, mãos grandes.Um dia, voltava ela do mercado com um frango na mão, deu de cara com a irmã chorando, de cara amassada e beiço partido. Tinha entrado na peia do amigo — o Izé da Bina — à-toa, ruindade de pingado ordinário. Dei'stá — disse ela — sai fora e deixa por minha conta. Óia, vai depená esse frango pra nóis na casa da vizinha e só entra quando eu chamá...Dondoca foi fazer o mandado. Estava ela na casa da vizinha depenando o frango, quando chegou o Izé da Bina, todo mandante, de paletó preto, gravata borboleta, calça engomada.Entrou no quarto e gritou autoritário pela Dondoca. Quem apareceu foi a Zóio de Prata, de manga arregaçada e porrete na mão. Atirou-se no mulato com vontade e foi porretada de direita e canhota. Bateu com sustância, sovou com fôlego, quebrou as carnes, moeu bem moído. No fim, jogou fora o cacete e entrou de corpo. Numa boa sobarbada deu com o crioulo no chão. Sentou em cima e esmurrou à vontade. Quebrou as ventas, partiu dois dentes, entrou no olho... xingou nomes... desses de ouvindo dizer o Antônio Meiaquarta, tipo de rua, rei dos bocas-sujas da cidade: eu sei dois contos e quinhentos de nomes indecentes... Zóio de Prata sabe cinco contos... apanhei dela, bateu em mim... tou descarado, apanhei dela... muié praceada... êta muié sagais.Depois de ver o cabra mole, estirado, fungando, Zóio de Prata assungou a saia, abriu as pernas e mijou na cara de Izé da Bina.Estava vingada a Dondoca e consolidada a fama das Cômodas.


cora coralina

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Roxo- beringela

o roxo-vida-campo de futebol

Campo florido em flores roxas

É um campo. No sentido correto e incorreto da palavra. Objetivamente um campo, de futebol, com tamanho padronizado e com regras geométricas/ métricas estabelecidas. Um típico campo de futebol profissional, com gramas verdes, telas ao redor, altas e protetoras (tal qual: não possibilitam á fuga da bola), pois, são muito altos os alambrados .

O mais curioso é que é um campo bem tratado, cuidado e zelado, por alguém, ou alguns que não sei quem. Essa localização é o confronto que causa no pensamento, ao se tratar da localidade de onde está situado esse campo de futebol. É na verdade no meio do nada, longe e distante de casas, e provavelmente de pessoas, no entanto ele é muito bem cuidado. É agradável aos olhos.

Mas há uma peculiaridade intima e singela, e a beleza é um tanto onírica e surreal. Está abandonado, porem está belo.

É de um tamanho respeitável.

Há muitos matos ao redor, o matagal olha e se joga para dentro, tentando corromper á tela que o cerca. A grama está sempre bem aparada e a trave do gol são duas astes presas á uma terceira transversa que dá a sustentação para permanecerem em pé. Há uma rede margeando todas as extremidades do ferro branco e cilíndrico. E dois imensos eucaliptos e um outro abacateiro que olham de longe, sua presença imponente rodeado pelo matagal ofuscante e ousado que crescem dia-a-dia ás suas quadrantes margens.

Dentro desse contexto verde-grama-matagal e ferrugem-tela, há uma cor brilhante, porem mórbida ( cultura de cores), com uma certa luminosidade interessante. É uma espécie de planta parasita que se alastra há uma das extremidades dividindo bem ao meio como uma linha colorida, pintada, traçada, ou que sabe uma lata de tinta que fora jorrada e espalhada como que com um rodo, numa intensa vibração vista como em um quadro de “ Van Gogh”.

É o trabalho da natureza. É a força orgânica terrestre desempenhando o seu papel e construindo uma beleza impar diante dos olhos, como uma poesia colorida e altamente presencial.

O campo de gramas verdes é envolvido, não sei, mas creio que numa certa época do ano, ou uma determinada estação, por uma planta parasita com flores intensamente roxas, colorindo o opaco campo verde e alegrando sua inútil presença.

Sei que alguns pés e uma bola, um dia, acabarão com essa beleza, não perceberão e se quer um dia se culparão de estragar aquilo que um dia me fez parar e pensar na cor roxa.

Elas ainda estão lá. Esses dias passei por perto e ás vi. Tenho pena em pensar que um dia serão pisoteadas, por algum evento local ou mesmo por alguma atitude humana. Mas ali é um campo de futebol, e é obvio a sua função. Não é um campo apenas verde com flores roxas, e ninguém entenderá isso.

Dá vontade de perguntar ao eucalipto, ao abacateiro, ao matagal, ao gramado, e saber o que eles pensam disso, mas ai serei eu que não entenderei o que eles dirão. Esse é ciclo da ignorância e da incompreensão daquilo que morre sem sabermos por que nasceu.

sábado, 17 de maio de 2008